É de causar estranheza — e, de certo modo, tristeza — observar como uma parcela considerável de cristãos de tradição reformada calvinista parece ter sucumbido à armadilha da soberba intelectual e espiritual. Não se trata de uma generalização apressada, pois há nessa tradição homens e mulheres de genuína piedade e erudição. Contudo, é inegável que certos círculos cultivam uma atmosfera de exclusividade que beira o sectarismo.
Fechados em si mesmos, como quem habita uma fortaleza doutrinária impermeável, comportam-se como únicos herdeiros legítimos da verdade teológica — como se a graça de Deus houvesse estreitado seus horizontes em vez de ampliá-los. Endeusam nomes do passado e do presente com uma devoção quase acrítica, elevando teólogos e pregadores à condição de oráculos infalíveis. Como se esses homens jamais houvessem errado em uma interpretação, jamais houvessem revisto uma posição ou carregado as marcas inevitáveis de seu tempo e de sua cultura. Esquecem, convenientemente, que a infalibilidade pertence às Escrituras — não aos seus intérpretes, por mais brilhantes que sejam.
O problema se torna ainda mais evidente quando se trata de acolher vozes de outros ramos do cristianismo. Pregadores, teólogos e mestres de outras tradições — ainda que fiéis às Escrituras, ainda que movidos pelo Espírito — são descartados sumariamente, não por aquilo que ensinam, mas simplesmente por não carregarem o selo do círculo aprovado.
É uma postura que empobrece. E, mais do que isso, contradiz frontalmente o próprio lema que tanto prezam: Ecclesia reformata, semper reformanda — a Igreja reformada, sempre em reforma. Bela divisa. Pena que, na prática, a reforma pareça restrita às doutrinas que já dominam, e jamais alcance a humildade necessária para aprender com quem pensa diferente.
Há aqui uma contradição profunda e lamentável: homens que professam a doutrina da graça soberana, mas que raramente a demonstram no trato com o próximo. Que falam de eleição e providência, mas agem como guardiões de uma verdade que, segundo eles mesmos creem, nunca lhes pertenceu — pois foi dada, não conquistada.
Isso não é reforma. É farisaísmo com roupagem confessional.