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Quem Vem Primeiro: a Fé ou a Vida?

A Ordo Salutis: Uma Comparação entre as Perspectivas Arminiana e Calvinista

A ordo salutis — expressão latina que significa "ordem da salvação" — descreve o processo pelo qual a salvação se realiza e a sequência lógica dos seus elementos. Embora arminianos e calvinistas concordem que a salvação é obra de Deus, divergem de forma significativa quanto à relação entre a fé e a regeneração, e é exatamente nesse ponto que as duas ordines se separam de maneira mais profunda.

A Ordo Arminiana

  1. Graça preveniente.
  2. Fé.
  3. União com Cristo.
  4. Justificação.
  5. Regeneração.
  6. Santificação.
  7. Glorificação.

Na perspectiva arminiana, a graça preveniente e a fé, estritamente falando, não integram a salvação em si, mas são necessárias para que ela ocorra. A graça preveniente torna o ser humano capaz de responder a Deus; a fé é a condição que Deus ordena seja satisfeita antes de agir salvificamente. Essa fé é sinérgica: uma resposta genuína do ser humano, tornada possível pela graça capacitadora de Deus. Tudo o que se segue à fé — os vários aspectos da salvação — é obra exclusivamente monergística de Deus. A fé, portanto, não causa a salvação; ela é a condição sob a qual Deus, fiel à sua promessa, salva os que creem.

Há outros aspectos da salvação que poderiam ser explicitados na ordo, como a adoção. Ela deveria provavelmente ser posicionada entre a regeneração e a glorificação: a regeneração marcaria o início da adoção, enquanto a glorificação representaria o seu ponto culminante. Já a eleição estaria amarrada à união com Cristo: tornamo-nos eleitos de Deus ao sermos unidos a Cristo, o Único eleito, participando da Sua eleição por meio dessa identificação com Ele. A fé é o que nos une a Cristo (Ef 1.13), e todas as bênçãos espirituais que residem nEle passam a ser do crente mediante essa união (Ef 1.3-12).

Do ponto de vista temporal, essas bênçãos se tornam nossas simultaneamente. Logicamente, porém, importa colocar a justificação antes da regeneração — e de tudo o que se segue — porque é preciso primeiro receber o perdão do pecado antes de receber a nova vida. Ninguém pode ter vida enquanto permanece sob a condenação e a ira de Deus, pois "o salário do pecado é a morte". Da mesma forma, ninguém pode ser santificado à parte da justificação. Assim, unidos a Cristo, somos purificados pelo Seu sangue, e a nova vida e a santidade provêm imediatamente dessa purificação.

Nessa perspectiva, a predestinação diz respeito ao destino pré-determinado dos crentes em virtude da união com Cristo: eles são predestinados para a adoção definitiva e para a conformidade à imagem de Cristo na glorificação. A predestinação não se refere, portanto, à pré-determinação divina de quais pecadores virão a crer e a ser salvos.

A Ordo Calvinista

  1. Eleição/Predestinação (incondicional).
  2. Regeneração.
  3. Fé.
  4. Justificação.
  5. Santificação.
  6. Glorificação.

A ordo calvinista tem seu ponto de partida na seleção divina e incondicional de certos indivíduos para a salvação — o que se compreende sob os conceitos de eleição e predestinação. Em seguida, Deus regenera, no tempo, os indivíduos pré-selecionados — geralmente após ouvirem o evangelho — e essa regeneração produz, de forma automática e imediata, uma resposta de fé. Os calvinistas tendem a descrever a fé não como uma condição para receber a salvação, mas como um dom incondicional e irresistível de Deus, parte integrante do próprio pacote salvífico, pois ela surge a partir da regeneração. Afirmam que a fé é monergística; contudo, é difícil ver como ela pode sê-lo sem que Deus creia pelo indivíduo — o que a maioria dos calvinistas nega, mantendo ao mesmo tempo que a fé é obra exclusiva de Deus.

Os Problemas da Ordo Calvinista

O ponto mais crítico da ordo calvinista é a prioridade lógica da regeneração sobre a justificação. Uma vez que a justificação é pela fé — como as Escrituras são claras em afirmar — e a fé sucede a regeneração nessa ordo, o resultado é que o novo nascimento ocorre, logicamente, antes do perdão e da satisfação da ira de Deus. Em outras palavras, pessoas recebem vida espiritual antes de serem justificadas: um absurdo teológico de primeira grandeza, já que ninguém pode ter vida enquanto permanece sob a condenação do pecado.

O posicionamento da adoção apresenta problema semelhante. Se a adoção estiver ligada ao novo nascimento — o que parece teologicamente coerente —, então temos alguém se tornando filho de Deus logicamente antes de ser perdoado e justificado, o que inverte uma ordem que a própria lógica da redenção exige.

A santificação tampouco escapa da dificuldade. Muitos calvinistas afirmam que a regeneração é o início da santificação. Se for assim, como explicar que alguém seja santificado — feito santo — antes de ser justificado?

Por fim, há o problema da união com Cristo. Se ela ocorre na regeneração, logicamente anterior à fé, então alguém está unido a Cristo antes de crer nEle. Se, por outro lado, a união for posicionada após a fé, abre-se outra dificuldade: pecadores recebendo vida espiritual antes de estarem ligados àquele que é, exatamente, a fonte dessa vida.

A ordo arminiana evita todos esses problemas. Ao posicionar a fé antes da regeneração e da justificação, ela preserva a coerência lógica do processo salvífico e honra tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade genuína do ser humano. A ordo calvinista, ao inverter essa sequência, se vê obrigada a responder por consequências teológicas que parecem, no mínimo, irremediavelmente problemáticas. 

 

Referências bíblicas para leitura:

Graça Preveniente: João 1.9; 12.32 — Tito 2.11 — Romanos 2.4
 
Fé como Condição Anterior à Salvação: João 3.16, 36 — Romanos 10.9-10 — Efésios 2.8-9 — Atos 16.31 — Romanos 5.1
 
Justificação pela Fé: Romanos 3.21-26; 4.1-5 — Gálatas 2.16; 3.24
 
União com Cristo pela Fé: Efésios 1.3-13 — Gálatas 3.26-27 — João 15.1-7
 
Responsabilidade Humana e Universalidade do Chamado: Mateus 11.28 — Apocalipse 22.17 — 2 Pedro 3.9 — 1 Timóteo 2.4 — Ezequiel 18.23, 32
 
Resistência à Graça: Atos 7.51 — Mateus 23.37 — Lucas 7.30 — Hebreus 3.7-8

 

 


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